quarta-feira, 23 de julho de 2014

MANIFESTO CONTRA A INVISIBILIDADE E O APAGAMENTO DAS MULHERES NEGRAS



Nós do Juntas na Luta, nos colocamos na luta pelo fim de todo e qualquer privilégio, por isso destacamos o que as mulhees negras fizeram na construção deste mundo, mulheres guerreiras, mães, filhas, religiosas, fortes... que fizeram questão de mantê-las apagadas.

Quem? O Estado, a igreja, a família e outras instituições fizeram e fazem questão de mantê-las mortas e esquecidas. Nós vivemos em uma sociedade racista e eurocêntrica e manter essas mulheres esquecidas faz parte da manutenção do poder dessas instituições.

Em uma simples busca no acervo municipal de biblioteca de São Paulo pode-se notar a anulação das mulheres negras, há pouquíssimos livros e difícil forma de aquisição e uma contradição já que temos um montante de escritoras, pensadoras e poetisas.

Na TV, revistas, jornais é a mesma situação, um massivo embraquecimento é feito, uma programação de misoginia e de rivalidade feminina é o que vemos. Em sua maioria as mulheres negras aparecem na TV como empregada, sua posição é sempre de Tia Anastácia ou na figura da “barraqueira gostosa”, objeto sexual, passista de escola de samba, a preta que serve para sambar, dançar funk, falar gíria e arrumar confusão. É esse o espaço para as mulheres negras na mídia. Uma mídia que naturaliza e propaga o racismo e a imagem da mulher negra como um produto, como carne... Carne essa, a mais a barata do mercado.

Uma pesquisa na rede virtual não é diferente o que elas fizeram e fazem não é publicado, espalhado e não achamos que é uma simples coincidência. Isso é pensado! Apesar de fazermos a resistência todos os dias e felizmente existirem muitas redes sociais, blogs e websites em luta para mostrar as mulheres negras e suas capacidades, não são eles que estão em maior evidência na rede.

Quem controla as máquinas, os meios de produção e a imprensa são os homens, o registro que temos das mulheres é feito por homens, que em sua maioria não destacam a mulher e sim a produção feita, quem ficou famoso foi o dono da foto e do vídeo e não a mulher na frente da lente. Há registros de mulheres brancas e estas as registravam e não as mulheres negras.

Até o nosso corpo quem o conhece é o homem, os ginecologistas dizendo como ele deve ser, como cuidar, essa ciência que cresceu a base de experimentos e testes desumanos com mulheres negras... E nisso é forte também a violência obstétrica, as mulheres negras morrem dia a dia nos hospitais, seja pelo fato dos médicos não quererem tocá-las ou por acreditar que ela é forte e aguenta a dor. Figura de mulher dócil e delicada? Mulheres negras nunca tiveram esse padrão, não foram educadas para serem “dóceis e delicadas”. O olhar da sociedade para as mulheres negras a enxergando como escravas, como mucamas, as animalizando não mudou até hoje!

Temos como exemplo o movimento dos Panteras Negras do qual elas tiveram que reinvindicar a sua presença, pois elas não eram chamadas para participar do movimento. mantém essa situação na política, nos movimentos sociais, nas organizações...

Quem está no ranking de mães solteiras? Até o homem negro só quer a mulher negra para ser seu objeto sexual. Eles fazem filhos com elas, mas a mulher para casar é sempre a branca. A mulher negra enfrenta a solidão, a dificuldade de ter um relacionamento sólido, comprometido. E se ela for lésbica/bissexual vai encontrar muita dificuldade em encontrar uma companheira, além de ser difícil mais ainda às negras assumirem uma sexualidade não-heteronomartiva, existe um padrão de beleza lésbico: o da lésbica branca, de cabelo liso com cortes alternativos, cores, descolada, tatuada. Nos espalos LGBT, a lésbica/bissexual negra não corresponde à estética com “glamour”, à estética Clara e Marina da novela (vemos que a mídia já estão começando a falar de homossexualidade e bissexualidade, mas com atores brancos, com a beleza padrão hegemônica).

Conheceram o filme que retrata uma rainha negra a Nzinga? Se não é porque ele mal esteve disponível ao público, foi exibido três vezes no Centro Cultural Banco do Brasil e não esteve na grande rede de cinema e não foi só com esse filme, esta rede invisibiliza esse tipo de registro, apaga, aniquila.

Mulher negra tem que lidar com o racismo no movimento feminista e com o machismo no movimento negro. As demandas que estão em evidência nos movimentos são da mulher branca ou do homem preto. Ser mulher, ser negra é combate em dobro! Não tem nenhuma lei que proteja a mulher negra especificamente, que contemple a questão de raça e de gênero juntas. A Lei Maria da Penha não tem recorte de raça por exemplo.

E quanto ao ferro... ou ele é pregado em nossa pele, ou em nossos cabelos. Enquanto as universidades e Vilas Madalenas da vida exaltam a cultura negra numa afirmação babaca do velho mito da democracia racial: “ser negro é lindo, eles gostam de negros”, se apropriam de nossos símbolos de resistência, o sistema prossegue nos obrigando as nos embranquecer, a deixar o cabelo mais... “comportado”, a disfarçar os traços com maquiagem.

E quais são os cargos profissionais que estão as mulheres negras? A mulher negra sempre esteve no mercado de trabalho, só que no informal, principalmente se ela for mãe, ela estará nas profissões menos reconhecidas e quando sobem, são invisibilizadas.

Na escola e na universidade a gente não estuda as artistas nem as intelectuais negras como Lelia Gonzalez, Sueli Carneiro, Bell Hooks, Audre Lorde...

As negras estão nas moradias mais pobres, nas quebradas, nas periferias. Se a negra for lésbica/ bissexual, ela vai ser obrigada a circular em outros espaços com sua companheira, pois há uma grande repressão em assumir sua sexualidade na quebrada. Se a sociedade já é lesbofóbica e bifóbica, a negra lésbica/bi além de lidar com o machismo e o racismo vai enfrentar a lesbofobia/bifobia. Vai ser fetichizada por conta de sua sexualidade e por ser negra que já é objeto de fetiche. Vai sofrer a exclusão, a segregação, a solidão, a discriminação. Vai ser inferiorizada e chacotada. Por ser mulher negra e lésbica. É combate em triplo.

E quanto às trans?... Elas são mais apagadas ainda. Se você procurar na rede “mulher negra trans” vai encontrar páginas de pornografia, mas saiba: existem muitas mulheres negras trans na arte e na ciência, na luta, na resistência, mas ela são ainda mais invisibilizadas. Se a mulher negra é objeto sexual, a trans é considerada o objeto sexual mais marginalizado, mas inferiorizado. A transfobia tá por toda a parte, além de não serem reconhecidas como mulheres, elas não são nenhum pouco respeitadas seja em qualquer espaço. E a trans negra vai lidar com todas as opressões nas suas costas, a transfobia, a transmisoginia, o racismo e o machismo. Vai lidar com a violência que é legitimada por todos, que é considerada normal.

E com tanto “progresso” humano ainda vemos a ideia de que mulher negra aguenta tudo, tem que ter força de um animal. Ela é animalizada.

E se ela rebelar contra isso: CADEIA! Quem é mesmo que esta mais encarceirada? A maioria das mulheres carcerárias é negra.

Por isso nos mantemos em luta e juntas até que todas sejam livres!

Esse manifesto foi escrito pelo Coletivo Feminista da Zona Leste de SP Juntas na Luta, as integrantes são todas mulheres cis, e a maioria é negra.



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